Fotografia: a arte de transformar o fugaz em durável

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Percebemos o nosso mundo através dos sentidos, com um grande destaque para a visão. Por isso, imagens são elementos decisivos na comunicação entre as pessoas. A sabedoria de Confúcio o levou a dizer que “Uma imagem vale mais que mil palavras” (mas o sempre crítico Millôr Fernandes escreveu: “Uma imagem vale mais do que mil palavras.Vai dizer isto com uma imagem.”)

Debates à parte, as imagens fazem parte da memória de cada um e da memória coletiva. Por isso mesmo, elas já foram registradas por humanos há muitos milhares de anos, como nas rochas da Serra da Capivara, no Piauí. O desenho e a pintura evoluíram, registrando imagens em superfícies, enquanto a escultura reproduziu cenas, objetos, animais e humanos em três dimensões.

Cada meio material foi explorado para reproduzir o que foi percebido pelos olhares de humanos. Muitas vezes, a percepção foi completada, expandida e às vezes modificada pela imaginação ou até mesmo adulterada por quem fez o registro, em peças de arte e artesanato. Dessas, muitas foram perdidas, mas há exemplos notáveis como o da Tapeçaria de Bayeux. Tecnicamente não é uma tapeçaria e sim um bordado notável, com 68 metros de comprimento e 50 centímetros de largura, que conta a conquista da Inglaterra pelos normandos e a batalha de Hastings, no século 11. Segundo o atual encarregado da sua conservação, “Sua sobrevivência praticamente intacta durante mais de nove séculos é quase um milagre…(mantendo) a harmonia e frescor de suas cores.” Sim, é um quase milagre, porque hoje temos muito poucas outras imagens, com a mesma idade. Essa obra de arte pode ser vista na sua tela, por inteiro e também nos seus detalhes. Portanto, ela ilustra os fantásticos progressos tecnológicos na reprodução de imagens, nos últimos quase dez séculos.

Essa frase nos faz pensar na durabilidade das imagens que hoje registramos e das que foram registradas nos últimos séculos. Os museus que abrigam quadros e murais pintados por gerações de artistas são também centros de conservação e restauração do seu acervo, que usam técnicas de análise química sofisticadíssimas, para poderem acompanhar o estado das obras-primas que abrigam. Pintores usam tintas, feitas com resinas, pigmentos e outras substâncias químicas. Qualquer substância muda com o tempo, mais ou menos devagar. Os responsáveis pelos museus e o público gostariam muito de que as pinturas fossem imutáveis, mas os admiradores de van Gogh foram alarmados, há poucos anos, com a notícia de que os os maravilhosos “amarelos” dos seus girassóis estavam se transformando em “verdes”. Isso foi descoberto em 2018 por um pesquisador da Universidade de Antuérpia, e não pode ainda ser percebido a olho nu. Mas a transformação já é detetável e pode se agravar, se não houver medidas de proteção. Felizmente, o conhecimento hoje existente sobre os pigmentos de cromo que van Gogh usou permite saber como os quadros devem ser protegidos, sem ser necessário retirá-los das vistas do público.

Nos dois últimos séculos, tem ocorrido a rápida introdução, obsolescência e substituição de tecnologias de registro, armazenagem e reprodução de imagens. O primeiro exemplo conhecido de captura de uma imagem em um meio material data de 1717, mas a primeira fotografia obtida com uma câmara que sobreviveu até hoje é de 1826 ou 1827. Nessa época, obter uma foto podia exigir uma exposição de oito horas, tempo que foi reduzido a alguns minutos por Louis Daguerre. O processo foi divulgado em 1839, data hoje aceita como a do nascimento da fotografia, na prática. Sucederam-se vários desenvolvimentos importantes, como os filmes fotográficos em rolos, o cinema (que é uma sucessão de quadros fotográficos), a fotografia em cores, a fotografia instantânea (Polaroid) e o registro eletrônico de imagens, este já nos anos 1990s. Hoje, câmaras fotográficas são praticamente desconhecidas de jovens, que fotografam e filmam com seus celulares, embora câmaras sofisticadas continuem sendo produzidas e usadas por profissionais da fotografia. Já não é comum encontrar lojas especializadas em equipamento de fotografia e cinema para o grande público, antes comuns nos shopping-centers.

Curiosamente, o virtual desaparecimento da máquina fotográfica foi iniciado com o lançamento da primeira câmara digital pela Kodak, a mesma empresa que tornou a fotografia acessível ao público, ao lançar a primeira Kodak Brownie, em 1901 (eu tive uma, nos anos 40-50).

A história da fotografia teve momentos importantes, no Brasil. Um deles foi a descoberta de Hercules Florence, em Campinas, em 1832 portanto sete anos antes do anúncio de Daguerre. O trabalho de Hércules Florence foi reunido, analisado e divulgado por Boris Kossoy em um livro que já está na terceira edição, baseado na sua tese de Doutorado defendida em 1976: ““Hércules Florence, 1833: A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil”.

Outro momento importante foi a criação de papéis fotográficos por Conrado Wessel, que lhe deu o domínio do mercado brasileiro, enfrentando com vantagens produtores americanos e europeus graças à superior qualidade dos seus produtos. Parte dos seus desenvolvimentos foi feita com o professor Robert Hottinger, de quem foi assistente na Escola Politécnica. Formou uma empresa, com a Kodak, que terminou adquirindo todos os direitos de propriedade intelectual. Seus bens permitiram a criação da Fundação Conrad Wessel, que tem um importante papel no cenário social e no incentivo à ciência, arte e cultura, no Brasil. É um belo exemplo de como a riqueza produzida pela inovação tecnológica beneficia toda a população.

Para saber mais

Sobre a Tapeçaria (ou bordado) de Bayeux: https://en.wikipedia.org/wiki/Bayeux_Tapestry

Além de muitas informações, você poderá ver a peça inteira e também cada uma das cenas, ampliada.

Sobre a alteração dos amarelos de van Gogh: https://www.nytimes.com/2018/06/01/arts/design/van-gogh-yellow-sunflowers.html

Sobre Hercules Florence: https://istoe.com.br/boris-kossoy-florence-foi-um-dos-grandes-inventores-da-fotografia/

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