Um revolucionário liberal.

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Semana passada tive o prazer de assistir ao documentário “Narciso em Férias”, da Globoplay, onde Caetano Veloso descreve, com riqueza de detalhes, os quase dois meses que ficou preso no Quartel Central do Exército do Rio de Janeiro. Super recomendo. Caetano não foi torturado, não apanhou, mas prende o telespectador por uma hora e vinte e três minutos, usando sua narrativa sentimental como se estivéssemos ao lado dele no cárcere; e ainda nos deixa com vontade de saber mais. Se este for o seu caso, leitor, sugiro beber direto da fonte, que está no livro do protagonista “Verdade Tropical”, editora Companhia das Letras, 1997.

Uma informação sobre o Caetano me chamou muito a atenção. Ele lê na integra o relatório do exército que finalmente citava o motivo da prisão. O acusava de subversivo, desvirilizante e que exalta os sistemas socialistas (sic). Caetano logo contesta: “subversivo e desvirilizante é uma combinação que tem a ver comigo. Eu sou essa pessoa. Tá certo. Mas “exalta os sistemas socialistas” não! Nunca exaltei”. E continua: “eu era tão contra que fui ler os liberais para entender tudo aquilo. Aquilo (Socialismo) não podia estar certo”.

Caixa de Texto: Figura 1: (de pé) Jorge Ben, Caetano, Gil, Rita Lee e Gal Costa. (sentados) os irmãos Sergio e Arnaldo Dias Baptista.

Mas quem foi Caetano Veloso na ditadura militar? No meu último artigo, descrevi como o Chico driblou a ditadura com as palavras. Caetano seguiu um caminho diferente. O artista baiano, como artista, é mais completo. Ousava na estética com cabelões encaracolados e volumosos; nas roupas, combinava diferentes tecidos e cores; nos arranjos utilizava guitarras elétricas e psicodelia; nas músicas, que não tinham o tom intelectual da Bossa Nova, tinham uma maior aproximação do jovem e um composé de ritmos populares e internacionais. Fundou em 1967, junto com Gilberto Gil, o Tropicalismo, movimento cultural de vanguarda principalmente na música. Era libertário, pois defendia a democracia; e revolucionário, pois inovou não só na musicalidade, mas também na vestimenta, quebrando padrões da época. Esse era o seu jeito de protestar. Teve seu ponto alto no Festival Internacional da Canção quando subiu ao palco com os Mutantes, trajando roupas de plástico e futuristas, e cantou “É Proibido Proibir” de autoria própria. A canção se inicia com uma orquestra desorganizada (de propósito) de Rogério Duprat e segue com as guitarras elétricas dos Mutantes e com sussurros ao fundo que hora parecem eróticos e hora de angústia.

A platéia se dividia entre os defensores da tradicional e culta bossa nova e os defensores da novidade zoeira que vinha do Tropicalismo. No meio da apresentação, as vaias tomam conta da plateia e ovos e tomates são atirados ao palco. Caetano interrompe a música e discursa em alto e bom tom dizendo:

“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! Vocês são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, absolutamente nada”. E terminou pedindo ao júri que o desclassificasse. Ele só tinha 26 anos.

O momento cômico/revolucionário ficou por conta dos Mutantes, que se viraram de costas para a plateia e continuaram a tocar seus contrabaixos e guitarras, como se nada estivesse acontecendo, enquanto Caetano vociferava contra uma legião de defensores da tradicional bossa-nova.

Além de É Proibido Proibir, as músicas que mais se destacaram no movimento Tropicalista foram “Tropicália” (1968), “Alegria, Alegria” (1967), “Atrás do Trio Elétrico” de Caetano; “Domingo no Parque” (1967), “Aquele abraço” (1968) de Gilberto Gil; “São Paulo, meu amor” (1968) e “Parque Industrial” (1968) de Tom Zé; “Não identificado” (1969), “Mamãe, coragem” (1968) e “Baby” (1968) de Gal Costa; “Tropicália ou Panis et Circenses” (1968), “Miserere Nobis” (1968), “Bat Macumba” (1968) e “Minha Menina” (1968) dos Mutantes.

O movimento perdeu força em 1968, com a prisão de Caetano e Gil, e foi sepultado com o exilio de ambos, em 1969. Após esse acontecimento, Caetano dedicou suas canções ao amor (“Queixa”, “Você é Linda”, “Lua e Estrela”), à natureza (“Terra”, “Luz do Sol”), às coisas simples da vida (“Trem das Cores”, “Reconvexo”, “Sampa”), sem deixar, no entanto, de tocar vez em quando, em questões sociais importantes (“Gente”, “Podres Poderes”, “Índio”).

Caetano ousou, chocou, causou na linguagem atual, se colocou contra a ditadura militar. Desde jovem, não era socialista, quando todo jovem, uns mais, outros menos, era de esquerda. Caetano foi homem jovem de coragem e de muita personalidade, que queria apenas a liberdade. Liberdade para se vestir, para misturar ritmos, para andar por onde quisesse e mais que tudo, para dizer o que pensava. Se o Chico driblou a ditadura com as palavras, Caetano usou a arte em todos os sentidos, para balançar as estruturas militares.

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