O Prevenido

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Ariovaldo pautou toda sua vida em não correr riscos, seja qual fosse o assunto. Só investiu em imóveis e caderneta de poupança.

Nascido numa família numerosa lutou muito para conquistar seu espaço. Era o oitavo de nove irmãos. Em casa não havia privilégios por parte dos pais e dos irmãos mais velhos. Era olho por olho e dente por dente. Quem chegava por último comia os restos ou tinha de preparar sua própria comida. Era a lei da selva.

Anos depois, na adolescência, Ariovaldo sempre levava a pior junto aos colegas. Feio e desengonçado, não tinha chances quando o assunto era competir com eles juntos às mulheres. Sempre sobrava a mais feia para ele, acostumou-se a estar sempre em segundo plano.

Lá no íntimo, Ariovaldo, ou melhor, Vardinho como era conhecido, se fazia de forte e não se tem notícia de que ele tenha reclamado, ou qualquer coisa parecida. Era um lutador. Aprendeu cedo a não engolir desaforos, brigava sempre com quem quer que fosse mesmo quando os motivos poderiam ser considerados banais pela maioria das pessoas. Aprendera a não engolir sapo. E, pasmem todos, não era só no relacionamento com as pessoas que Vardinho tinha esta atitude rebelde e inconformada. Noutros assuntos também chamava atenção sobre seu estranho comportamento.

Durante sua vida, teve muito sucesso na carreira profissional. Estudou em boas escolas, cursou importantes faculdades e trabalhou em grandes empresas, onde galgou posições de relevo.

Mas, aquele modo marrento, briguento, questionador, às vezes até fanfarrão, sempre levou consigo.

Antigos colegas seus de trabalho, quando se encontram, quase sempre falam algo sobre o Vardinho. Todos tem uma história para contar dele. Um colega dele, ultimamente contou que numa época em que a grande maioria tinha os famosos fusquinhas como carro dos sonhos, o Vardinho, tinha um JK, velho sim, mas imponente e era motivo de muita conversa dele para cima dos colegas de trabalho. Numa outra época, ele tinha resolvido se casar e, não é que tinha conseguido conquistar a colega de trabalho mais bonita que havia na empresa, secretariando uma importante seção. Dizia-se, com maldade incontida de alguns, que quem conquistara ela fora o JK e não o Vardinho. Aí, notava-se ele já estar vivendo numa nova fase de sua vida.

Este relato ficaria incompleto se não falasse algo sobre o que circulou nesta ultima semana nas conversas com ele e sobre ele.

Vardinho tinha sumido durante vários anos daqueles colegas do passado. Deve estar aí pela casa dos setenta anos de vida. Quem o vê, nota estar mais suave, brincalhão, gozador, e tudo parecendo estar de bem com a vida. Durante a conversa, diz ter se divorciado da antiga secretária (a gostosona, da época, claro!). Confirmou-se, ela realmente se casou foi com o JK.

Na rodinha de amigos, ele depois de dar boas e sonoras gargalhadas, conta.

— Pois é pessoal, continuo morando em Santo André, lá pelos lados da Avenida Portugal. Apareçam por lá. A propósito, vejo que todos vocês já passaram dos sessenta ou mais anos, e o próximo assunto talvez possa interessar a alguém. Estou vendendo três terrenos em cemitérios. O Primeiro é no Cemitério de Camilópolis, o bairro onde morei na minha juventude, o túmulo está em bom estado, vazio de cadáveres e pago todo mês para uma senhora lavar e cuidar da manutenção, está muito bonito.

— O Segundo é um terreno no Cemitério de Congonhas, super moderno, gramadinho, já com plaquinhas onde só falta colocar os nomes dos futuros residentes, esse foi comprado quando estava no auge profissional ganhando bem e me pareceu, na época, um bom investimento. Ele está até hoje vazio e sem morador.

— O Terceiro é um tumulo classe A, no Cemitério de São Bernardo, também vazio. Foi comprado quando trabalhei alguns anos numa empresa de lá, a Mercedes Benz. Com jardinzinho, floreira, gramado e tudo para tornar um conforto a nossa ultima morada nesta terra.

— Estou vendendo os três. Aceito propostas, contrapropostas e facilito o pagamento. Quero me desfazer deles. Vocês irão gostar.

Alguém pergunta.

— Mas, Vardinho, vender os três! Você acha que não vai morrer?

— Sabe pessoal, resolvi que após morrer quero ir para o Crematório de Vila Alpina. Tenho medo dos vermes devorando minhas carnes.

Coisas do Vardinho!

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