Herói aos 83 anos

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Um enorme burburinho acontecia no salão nobre do Consulado dos Emirados Árabes Unidos de Dubai — situado na Alameda Santos — na última quinta-feira, após o carnaval. As colônias libanesas e árabes radicadas em São Paulo estavam lá representadas por seus mais honoráveis cidadãos. Acontecia algo de muita relevância e ao que parece o motivo era uma homenagem a um cidadão brasileiro feito a pedido e a mando de alguém, não menos, que o Emir Mohammed bin Rashid Al Maktoum, atual Primeiro Ministro de Dubai e também Vice-Presidente dos Emirados Árabes Unidos, em suma, a máxima autoridade política de Dubai. Falava-se que o Emir de Abu Dhabi também tinha participado no pedido de tal condecoração.

Sabemos ser o Emirado de Dubai o mais populoso e o principal dos sete emirados que compõem os chamados Emirados Árabes Unidos localizados no Golfo Pérsico — donos da sexta maior reserva petrolífera do mundo. Os seis outros Emirados são Abu Dhabi, Sharjah, Ajmã, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujeira.

Voltemos no tempo, não mais que três ou quatro semanas, final de janeiro ou início de fevereiro, não sabemos ao certo. Nosso personagem parte do Brasil para Dubai, talvez a negócios, talvez para ultimar alguns assuntos pessoais, não o sabemos com certeza os reais motivos de tal viagem. Acreditamos ser a lazer e por extensão, visitar alguns locais de que sente grande atração, trazendo recordações agradáveis. Por certo, matará as saudades de alguns patrícios e seus olhos verão, mais uma vez, aquele torrão marcante ainda presente nas recordações mais antigas, ou seja, a terra de seus antepassados que foram deixadas para trás pela geração anterior à sua. Seus pais vieram do Líbano, sangue fenício é verdade, mas o sangue árabe lhe é muito caro.

Nestes poucos dias, revê amigos que desde longo tempo não os via. Viaja para novos locais conhecendo a vida corriqueira dos que lá vivem. Admira a pujança do país, que antes no passado foi local preferido pela pirataria marítima e que após o advento do petróleo transforma-se num oásis paradisíaco. Verifica o quanto pode a força do dinheiro, fazer em termos de construções e mudar a vida de um povo. Onde antes havia um deserto ou um posto de troca de camelos, hoje há modernas rodovias, enormes condomínios residenciais, shoppings centers, clubes de lazer e instituições de aprimoramento cultural.  

          Gosta desses passeios e procura curtir da melhor forma possível. Já passou dos 83 anos de idade e nesta fase da vida as coisas tem um significado diferente para cada um. Sente-se feliz, realizado, mas lá no íntimo ainda sente que falta algo para ser feito. Frequentemente tem pensado no que ainda falta…

Faltando poucos dias para retornar ao Brasil, numa radiosa manhã ensolarada, ele disputa partidas de tênis com um amigo conhecido recentemente, num luxuoso clube de Dubai. Trata-se de um árabe sunita residente na França, mais novo que ele uns dez anos. Jogam várias partidas. O adversário é bom, mas não o suficiente para vencê-lo, pois como sabemos, o francês está jogando com um dos mais gabaritados em tênis, na sua faixa etária, nas estatísticas do Clube Atlético Monte Líbano de São Paulo.

Após as partidas, ambos já cansados se dirigem aos vestiários para uma ducha. Logo após, o adversário irá pagar as refeições e bebidas conforme apostas feitas e ganhas. Caminham a passo lento, conversando sobre detalhes dos lances do tênis e nosso personagem elogia muito a técnica do francês e diz ter aprendido novos lances jogando contra ele. O francês está feliz e transparece entre eles uma aura de harmonia fraterna naquela dupla.

… Súbito, algo inusitado ocorre.

Uma criança, um menino de quatro anos aproximados, passa velozmente por ambos os amigos, correndo atrás dum cãozinho que dispara em zigue-zague pelas quadras. Junto às quadras de tênis, existem várias piscinas, de diversos tamanhos, inclusive algumas consideradas olímpicas, de grande profundidade.

Os dois amigos seguem seu caminho rumo ao vestiário sem dar maiores atenções a esse fato. Há mais pessoas no local.

O menino em sua desabalada corrida atrás do cachorrinho é seguido por uma babá árabe que a duras penas consegue acompanhar a rapidez do pequenino. Ela chama por ele, mas em vão. Ele não atende e a corrida é cada vez mais rápida. Tudo aconteceu rapidamente, o menino escorrega nas bordas duma piscina olímpica e cai dentro d’água. Grita a plenos pulmões… A babá grita desesperadamente e cada vez mais alto. Naquele momento tudo parece estar perdido e reina confusão.

Não se sabe como, mas foi dito ter aparecido como numa cena de filme, um homem num pique fantástico correndo em direção àquela piscina. Atira-se na piscina, dá algumas braçadas e minutos depois traz o garotinho abraçado ao cãozinho em altos gritos, chorando muito, mas, enfim, salvos…

Muitas pessoas aproximam-se, pegam a criança, levam rápido para um ambulatório. Durante momentos houve muito falatório e correria onde ninguém sabia quem era quem naquela situação.

Nosso personagem após ter entregado a criança nos braços da babá e demais pessoas que intervieram no ato, se afasta para se enxugar e se recompor melhor. Minutos depois, procura ir ver como estava o pequenino, mas não mais o encontra e nem a babá. Todos tinham ido embora, tinham sumido.

Estranha o acontecido, mas aconselhado pelo amigo francês não vai atrás de mais notícias. Fizera sua parte.

Estava de volta ao Brasil. Quatro dias após ter chegado recebe em sua casa um emissário do Consulado dos Emirados Árabes Unidos. Tal funcionário graduado, representando o próprio Cônsul, entrega um documento pedindo sua presença no Consulado, ao mesmo tempo em que apresentava os motivos de tal convocação. O teor resumido do convite era:

“O Consulado tem a grata incumbência de convocá-lo a participar de uma sessão extraordinária, no próximo dia 07 de Março em nossa sede nesta cidade, para receber uma Condecoração Especial do governo de nosso país.

O motivo de tal condecoração é um preito do Emir Mohammed bin Rashid Al Maktoum de Dubai, juntamente com o Khalifa Bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, Presidente dos Emirados Árabes Unidos e Emir de Abu Dhabi.

O Emir Al Nahyan de Abu Dhabi é eternamente grato pela vida de seu filho, salvo durante momentos em que brincava com seu cãozinho.”

Hoje, alguns dias após a homenagem, nosso personagem pergunta a si mesmo. “Como fui capaz daquela atitude naquele exato momento? Honestamente não sei.”

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