De volta para o futuro

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Estamos assistindo à crescente eletrificação dos transportes e os casos que mais chamam a atenção são os carros elétricos e os drones. Deixaram de ser apenas novidades ou notícias e hoje ocupam espaço nas lojas, nos sonhos de consumo de muitas pessoas e nos planos estratégicos de empresas e países.

O sucesso atual desperta uma pergunta: por que isso não ocorreu antes? Ocorreu, sim, pois o primeiro modelo de um automóvel elétrico, em escala reduzida, foi criado pelo húngaro Ányos Jedlik, em 1828, sendo logo seguido por outros inventores, em vários países. Quase duzentos anos atrás! Sucessivos aperfeiçoamentos foram feitos nas décadas seguintes e um grande impulso foi dado por outra novidade: a bateria recarregável de chumbo, inventada por Planté em 1865 e aperfeiçoada por Fauré, na França.

No fim do século 19, havia nos Estados Unidos automóveis a vapor, gasolina ou elétricos, e os https://br.pinterest.com/dukesalley/antique-electric-cars/últimos eram os mais vendidos, pois não apresentavam muitos dos problemas dos carros a gasolina: barulho, vibração, cheiro do combustível. A partida do motor era instantânea e não exigia o uso da manivela. Carros eram usados principalmente nas cidades, pois havia poucas estradas suficientemente boas. Portanto, a autonomia não era um problema.

O pico de produção dos carros elétricos, nos Estados Unidos, foi em 1912. Em seguida, quatro fatores diminuíram a sua competitividade, face aos autos a gasolina: a construção de estradas, que aumentou a demanda por carros de maior autonomia; a descoberta de petróleo no Texas, seguida de redução nos preços da gasolina; a invenção da partida elétrica, em 1912, eliminando a necessidade das partidas manuais, à manivela; finalmente, a produção em massa introduzida por Henry Ford, que reduziu preços dos autos com motores de combustão interna. Em 1935, a produção de carros elétricos havia praticamente desaparecido e novos desenvolvimentos só começaram em 1964, sendo estimulados pela primeira crise do petróleo, em 1973.

Nas décadas seguintes, veículos elétricos foram usados apenas em aplicações específicas: por carteiros do US Post, por entregadores de leite no Reino Unido, em carrinhos de golfe e em aeroportos, em empilhadeiras que operam em ambientes fechados e outras aplicações de pequena escala, nas quais a ausência de emissões de gases é decisiva, bem como a partida rápida dos motores.

A atual ascensão do automóvel elétrico ocorre um século depois do seu primeiro apogeu e é muito bem ilustrada pela história da empresa Tesla. Fundada em 2003, registrou lucro em 2013, pela primeira vez. Em 2016 tornou-se uma das dez marcas de automóveis mais valiosas do mundo e no início de 2020 seu valor de mercado superou os da Ford e GM juntas, embora estas tenham vendas muito superiores.

Ascenção, queda e a nova ascensão do automóvel elétrico nos ensinam muitas coisas. Quais foram as tecnologias decisivas, nesta história, e quais outros fatores foram importantes?

As baterias de chumbo foram muito importantes na primeira onda dos carros elétricos e se tornaram componentes obrigatórios dos veículos com motores de combustão interna, nos quais imperam até hoje. Têm grandes qualidades e também defeitos sérios: usam chumbo na forma de metal, óxidos e sais, de reconhecida toxidez, além de terem uma relação energia armazenada/peso que limita a autonomia dos veículos. Por isso, não conseguiram dar competitividade aos autos elétricos competitivos, durante quase todo o século 20.

O cenário mudou completamente, quando surgiram as baterias de íons de lítio. A sua criação e desenvolvimento, durante os anos 1970-1980, deram o prêmio Nobel de Química, em 2019 a Akira Yoshino, John Goodenough e Stanley Whittingham. O primeiro produto comercial surgiu em 1991, desenvolvido pela equipe liderada por Y. Nishi, em projeto das empresas Sony e Asahi Kasei. Não por acaso, a empresa Tesla é hoje também uma grande produtora de baterias de lítio, sendo inclusive fornecedora de outros fabricantes de automóveis.

Mas a história das baterias de lítio também mostra revezes: elas provocaram incêndios e recalls. Alguns tiveram grande espaço no noticiário, como os do Galaxy Note 7, da Samsung e o dos aviões Boeing 787, porque causaram enormes prejuízos financeiros.

Hoje, o aprendizado conseguido fabricando e usando as baterias de lítio permite a correção e prevenção de riscos à segurança das pessoas e bens. Os riscos nunca serão nulos, como nunca são, mas devem ser amplamente superados pelas vantagens, tanto das baterias de lítio como, principalmente, dos carros elétricos.

Essa história já se estende por dois séculos, e continua. Como tudo o que acontece nos ambientes humanos e na natureza, ela não é linear. Tem altos e baixos, com alternância de períodos de apogeu e de decadência. Ela é viabilizada por um dos elementos mais leves da Tabela Periódica, o lítio, que até recentemente era mais conhecido pelo seu uso em medicamentos psiquiátricos. O capítulo das baterias de lítio também mostra que o desenvolvimento tecnológico tem os seus tempos: mais de 20 anos até o primeiro produto comercial, quase cinquenta até o Prêmio Nobel. Portanto, o sucesso depende de muita persistência, muita confiança mútua entre investidores, pesquisadores, engenheiros e gestores. Exige ambientes humanos em que predominem mentes saudáveis, construtivas. Não é para especuladores e pessoas que ambicionem ganhos rápidos, ou tratem os investimentos em tecnologia como um jogo financeiro.

A moral da história é: como sempre, as boas sementes, em solo fértil, produzem colheitas abundantes, desde que não falte o trabalho sério, consciente e dedicado.

Para saber mais:

Uma história dos carros elétricos pode ser encontrada no site https://www.thoughtco.com/history-of-electric-vehicles-1991603.

Sobre as baterias de lítio:

Nivaldo Bocchi, Sonia R. Biaggio e Romeu C. Rocha-Filho, artigo na revista Química Nova na Escola, http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc41_4/03-AQ-76-19.pdf

Fotos de carros elétricos antigos

https://br.pinterest.com/dukesalley/antique-electric-cars/

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