Um driblador de talento

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Uma das grandes paixões do Chico Buarque de Holanda é o futebol. Desde criança jogava com amigos e irmãos na Haddock Lobo, em São Paulo. Além da rua, passava horas jogando futebol de botão, organizava campeonatos, narrava os jogos e chegou a criar um time próprio chamado Polytheama (“Muitos Espetáculos” em grego), com hino e tudo. Mais tarde, após o sucesso da carreira musical, Chico compraria um campo de futebol e finalmente montaria a sede do Polytheama, onde segundo ele, nunca perdeu uma partida. Na juventude, chegou a comparecer à uma “peneira” da Juventus – SP, mas após horas esperando, foi pedido a ele que voltasse no dia seguinte. Ele não voltou, para a nossa sorte. Chico é um exímio driblador, talento este adquirido após tantos anos no esporte bretão.

Não só no futebol o Chico se destacou como talentoso driblador. Nos anos de chumbo, entre 1964 e 1985, o Brasil foi governado por uma ditadura militar e Chico foi um dos artistas que mais se opôs aos canhões através de suas canções. Não era uma tarefa fácil já que qualquer alusão contrária ao Regime era duramente castigada com prisão, tortura e até assassinato, “quando as coisas saíam do controle”.

Para não ser pego, Chico usou e abusou das palavras para driblar os censores. Trabalhar as palavras fora outra paixão do compositor carioca. Desde jovem adorava ler Guimarães Rosa e admirava suas licenças poéticas. Ao criar “Pedro Pedreiro”, segundo ele, a palavra “penseiro” do verso “Pedro pedreiro penseiro” foi inspirada no estilo de Guimarães Rosa, já que esta palavra não existe na Língua Portuguesa. Na obra prima “Construção”, as últimas palavras de cada verso são todas proparoxítonas, e podem ser rearranjadas de várias formas, mantendo o sentido da letra. Palavras de duplo sentido são também a especialidade dele; na canção “Futebol”, quando diz “Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro” a palavra “Para” se refere à uma dedicatória às lendas do futebol, mas também ao verbo “Parar” desafiando o time adversário a pará-los. Noutra música, “O Meu Amor”, na frase, “Eu sou sua menina, viu?”, “viu” se refere tanto à confirmação do compromisso quanto ao adjetivo “vil” de ordinária, sem valor. Em “Joana Francesa”, a palavra “acorda” é repetida várias vezes e se transforma em “d’accord” que significa “concordar” em francês. “Cálice” pode ser interpretado como cálice de vinho ou cale-se do verbo calar, tão usado pela ditadura militar. A obra do Chico é repleta desses duplo sentidos, o que a torna ainda mais interessante.

Criou a frase palíndrome “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos” que influenciou a música “Corrente”. Tal como a frase, que possui o mesmo significado de frente para trás e de trás para a frente, a música tem duplo sentido, dependendo da direção que é cantada. Apoia a ditadura fazendo uma mea culpa, quando cantada do início ao fim, e opõe-se claramente à ditadura, quando cantada do fim para o início. É genial. Na gravação, a segunda vez que a música é cantada, uma segunda voz entra junto com a primeira, só que cantando de trás para a frente, insinuando que a canção é como uma corrente marítima (ou de pensamento) que pode ir tanto para um lado, quanto para o outro.

Apesar de você é outra obra prima do Chico. Recém chegado do exílio, e aconselhado pelo Vinicius a voltar com tudo no engajamento político, o compositor carioca compôs esta canção inteiramente contra a ditadura. Porém, a mesma podia ser interpretada como se a ditadura fosse uma mulher mandona que brigou com o autor. Foi chamado pela polícia para explicar-se e Chico, mais que depressa, revelou seu descontentamento com a tal mulher, obvio.

É claro que com o tempo os militares perceberam que estavam sendo “ludibriados” pelo sagaz compositor, já que suas músicas se tornavam hinos de protesto. Atordoada, a Censura vetava qualquer canção que estivesse assinada pelo Chico Buarque. O jeito era disfarçar-se em um pseudônimo. Nascia assim Julinho da Adelaide, autor de 3 canções – Acorda Amor, Jorge Maravilha e Milagre Brasileiro. Para compor o personagem, não faltou criatividade. Ele, “Julinho”, chegou a conceder uma entrevista ao teatrólogo Mario Prata e ao jornalista Melchíades Cunha Jr. para a edição paulista de Última Hora. Não se deixou fotografar pois “tinha uma grande e feia cicatriz” no rosto. No lugar da sua foto, foi estampada a da mãe Adelaide com a legenda: Adelaide na época de “Orfeu Negro e da Brasiliana”. A internet tem a entrevista na íntegra, e posso garantir, é tão criativa quanto a criação do pseudônimo. Chico sempre foi tímido, mas entre amigos, e com algumas doses de whisky, tornava-se um grande brincalhão, cheio de anedotas e sátiras.

Como ninguém tinha ouvido falar deste tal Julinho, as músicas passavam. “Acorda Amor” é uma canção genial, onde o marido acorda assustado ao ouvir barulho no portão, e ao invés de chamar a polícia, chama o ladrão, sugerindo que na época, o ladrão era menos perigoso que a polícia (DOPS).

Chico nunca foi preso, mas teve papel decisivo no meio artístico deixando inúmeras músicas de protesto que influenciaram toda uma geração, motivando opositores do regime a continuar a dura caminhada. Não só com a bola de futebol Chico era um exímio driblador, mas, com as palavras, foi capaz de driblar até o poderio militar dos canhões.

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