Ser moderno é ser sustentável

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Quem, como eu, já estava na escola nos anos 70, irá se lembrar da teoria de Robert
Malthus. Publicado em 1798, Malthus afirmava que havia um descolamento entre o
crescimento demográfico e a produção de alimentos o que, inevitavelmente, levaria,
no futuro, ao exacerbamento da fome no mundo, sobretudo nos países mais pobres.
Felizmente, um dos avanços mais importantes para a humanidade (para muitos
cientistas e acadêmicos o mais importante), foi a produção da amônia em escala
industrial, por um processo conhecido como Haber-Bosch¹;², na primeira metade do
século XX. A amônia é, ainda hoje, a principal fonte de nitrogênio para a obtenção dos
fertilizantes que são utilizados em escala mundial na produção de alimentos e permitiu
o que foi definido mais recentemente como a “revolução verde”, ou a “revolução do
campo”.


As descobertas da ciência e o avanço da tecnologia no campo eliminaram quase que
por completo o risco de uma fome em escala global. Entretanto, o último relatório da
FAO sobre Nutrição e Segurança Alimentar³ estima que atualmente 690 milhões de
pessoas, ou 8,9% da população mundial, ainda passam fome e que 750 milhões estão
expostas ao risco de não ter comida diariamente. As regiões mais afetadas são a
África, América Latina e Ásia Ocidental. O mesmo relatório aponta, ainda, que o
número de pessoas expostas a fome voltou a subir desde 2015. As principais causas
para que a fome não tenha sido totalmente eliminada no planeta são principalmente de
ordem político-econômica, mas conflitos e mudanças climáticas também têm
contribuído com esse recente incremento.

O que é unânime entre os estudiosos, é que a erradicação da fome não está
relacionada à produção. O alimento produzido globalmente é mais do que o suficiente
para alimentar toda a população do planeta.
Entretanto, há outros fatores também muito sombrios com grande impacto na
erradicação da fome: a perda e o desperdício de alimentos. Estima-se que 30% da
produção de alimentos para o consumo humano é perdido ou desperdiçado.

Estudos mais recentes da FAO (SOFA)5 apontam que 14% de todo o alimento
produzido globalmente se perde antes mesmo de chegar no consumidor por razões
diversas de produção e logística.


Já o desperdício de alimentos é um problema maior nos países industrializados. Os
hábitos de consumo e a baixa consciência do consumidor são fatores importantes para
o desperdício. Alimentos em bom estado para o consumo são jogados no lixo
diariamente.

E no Brasil?
O Brasil hoje é um dos principais exportadores de alimentos, também graças aos
avanços tecnológicos que expandiram a sua fronteira agrícola. Não encontrei números
atualizados sobre a perda e desperdício de alimentos aqui no país, mas um estudo da
empresa alemã BASF estima que foram perdidas 35% de toda a produção de
alimentos em 2013, correspondente a 3,3% do PIB daquele ano6
. Deste total 10% das
perdas ocorrem durante a colheita, 50% no transporte, 30% nos centros de
distribuição e 10% no consumo.


Outro relatório mais recente conhecido como índice Global da Fome7
(GHI em inglês,
que aplica uma metodologia de apuração mais abrangente e é publicado por duas
ONGs), mostra que a situação da fome no Brasil ainda atinge 5,3% da população.

Conclusão:
Em 2015 a Organização das Nações Unidas lançou a Agenda para o Desenvolvimento
sustentável com 17 ações globais, sendo que as duas primeiras são a erradicação da
miséria e da fome.


Nas redes varejistas e nas feiras livres, produtos com aparências “não agradáveis”
nem sequer vão às prateleiras e são descartados; um efeito negativo da
“gourmetização” que vemos nos últimos anos.

Esse é um ponto que muito me incomoda, sobretudo quando percebo que,
atualmente, em inúmeros programas de televisão sobre gastronomia, a ideia da
sofisticação na cozinha é exageradamente explorada.


Nada contra o belo e a estética, mas muitos “chefs” que criticam o setor agrícola
culpando-o pelo excesso de químicos que são utilizados no campo e defendendo o
consumo somente de produtos orgânicos não demonstram a mesma preocupação
com a perda e o desperdício na cadeia produtiva e no consumo, ou que a fome ainda
assola o planeta.


Seria ótimo se encontrássemos uma solução para alimentar o mundo somente com a
agricultura orgânica, mas não podemos ignorar que as inovações no campo pela
tecnologia tornaram o alimento mais barato e mais acessível à maioria da população.
Claro que há muito ainda que avançar. A produção de alimentos precisa ser
autossustentável e ecologicamente mais amigável. Vários países estão buscando
alternativas para reduzir o desperdício no campo, utilização da irrigação e consumo de
água de forma mais racional, a redução de defensivos agrícolas, entre outras
iniciativas.


Nos últimos 100 anos, a ciência e a tecnologia deram uma vasta contribuição para a
sociedade não só na produção de alimentos, como também na erradicação de muitas
doenças. Hoje vivemos muito melhor que os nossos antepassados. Portanto, se você
também defende a produção de alimentos de forma segura e amigável, um bom
começo é prestar atenção ao desperdício no seu entorno.

Referências:
1;2) Helmenstine, Anne Marie, Ph.D. “Haber-Bosch Process Information.” ThoughtCo,
Aug. 28, 2020, thoughtco.com/haber-bosch-process-604046; Briney, Amanda.
“Overview of the Haber-Bosch Process.” ThoughtCo, Aug. 28, 2020,
thoughtco.com/overview-of-the-haber-bosch-process-1434563.
3) FAO, IFAD, UNICEF, WFP and WHO. 2020. The State of Food Security and Nutrition in the
World 2020. Transforming food systems for affordable healthy diets. Rome, FAO4) Food
wastage footprint – Impacts on natural resources http://www.fao.org/3/i3347e/i3347e.pdf
4) FAO – Food Wastage – Impacts on natural resources
http://www.fao.org/nr/sustainability/food-loss-and-waste/en/
5) FAO. 2019. The State of Food and Agriculture 2019. Moving forward on food loss and
waste reduction. Rome. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO
http://www.fao.org/3/ca6030en/ca6030en.pdf
6) BASF’s Creator Space program https://creatorspace.basf.com/content/basf/creatorspace/en/co-creation/challenges/avoid-food-loss.html
7) Global Hunger Index 2019 – https://www.globalhungerindex.org/brazil.html


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