Johnny Alf – Uma injustiça da Historia

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Você já ouviu falar em Johnny Alf? Não, não se trata de um cantor famoso norte americano. Estou falando do nome artístico de Alfredo José da Silva, carioca, pobre, filho de uma empregada doméstica e de um cabo do exército que faleceu quando ele só tinha três anos de idade.

A mãe o criou sozinha. Aos 9 anos, começou a ter aulas de piano com uma das melhores professoras do Brasil, Geni Borges, estudos estes pagos pela patroa da mãe. Também estudou no Colégio D. Pedro II no Rio de Janeiro e aos 14 anos, entrando em contato com o Instituto Brasil- Estados Unidos, foi convidado a ingressar num grupo artístico onde ganhou o apelido americanóide.

Ele foi crucial para a música brasileira. O disco de 78 rotações com Alf cantando sua canção “Rapaz de bem”, lançado pela Copacabana em 1955, foi considerado por Antônio Ramalho Neto, em Historinha do Desafinado (Editora Vecchi, 1965), como o primeiro da Bossa Nova. Porém, como mencionado no meu último artigo, a Bossa Nova seria oficialmente lançada em 1958 por Tom, Vinicius e João Gilberto.

Essas ironias da História ocorrem de tempos em tempos pois dizem que João Gilberto teria se inspirado, entre outras fontes, no piano de Johnny Alf para criar sua revolucionária batida de violão. E não só o anônimo João Gilberto batia cartão no Hotel Plaza em Copacabana para escutar o piano de Alf. Nada mais, nada menos do que Tom Jobim, Carlinhos Lyra, João Donato, Silvinha Telles e Luizinho Eça – estrelas da elite da Bossa Nova – frequentavam o hotel para admirar a sonoridade marcante de Johnny Alf.

De fato, Alf começou na música erudita, passou pelo Instituto Brasil-EUA onde recebeu influência dos filmes musicais norte-americanos com trilhas sonoras assinadas por compositores como George Gershwin e Cole Porter. Misturando a técnica clássica com os improvisos do jazz e o samba-canção que ouvia no rádio, o jovem músico pôde criar algo de realmente novo no início dos anos 1950, muito antes do “lançamento oficial” da Bossa Nova.

E não para por aí. Em maio de 1960, para o primeiro show “oficial” da Bossa Nova, A noite do amor, do sorriso e da flor, na Faculdade de Arquitetura da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, Ronaldo Bôscoli fez questão de ir buscar Johnny Alf em São Paulo. E disse para toda a garotada da plateia que o músico fazia Bossa Nova “há dez anos”.

Sempre escutei na minha família que a Bossa Nova é a mistura do samba com o jazz, e quando o escuto, me parece um jazz em português. Não deixem de escutar “Eu e a Brisa”, “Ilusão à Toa” e “Rapaz de Bem”. Para escuta-lo com convidados, em arranjos cheios de improviso a la “pure jazz”, provem o álbum de 2010 chamado “Johnny Alf ao Vivo e à Vontade com Seus Convidados” ou desfrutem de uma overdose de qualidade musical brasileira no álbum “Olhos Negros” de 1997, onde ele canta com Gal, Chico, Caetano, Zizi Possi dentre outros. Aliás, esse álbum é presença garantida lá em casa.

Se hoje ainda assistimos à atos racistas como o recente assassinato do negro George Floyd nos EUA, me pego pensando, sem tirar o mérito musical de ninguém, como a sociedade brasileira da época assimilaria um negro, homossexual e pobre, sendo o pai da Bossa Nova; mas o próprio jornalista Ruy Castro, declarou que Johnny Alf foi o “verdadeiro pai da Bossa Nova” e Tom Jobim o apelidou de “GeniALF”. A elite da Bossa Nova se inspirou na sua batida para lançar o que seria uma das maiores criações musicais do mundo. Provavelmente o ritmo já estava criado, só faltou convidar o pai para a festa.

Johnny Alf morreu aos 80 anos, em 2010, no hospital estadual Mário Covas, em Santo André (SP), onde, durante três anos, se tratou de um câncer de próstata, com a ajuda de amigos.

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