ANDAR DE CARROÇA NOVAMENTE?

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O consumo de combustível é a maior fonte de emissões responsáveis pelo aquecimento global. Por isso mesmo, e felizmente, o mundo se encaminha para o estímulo ao transporte coletivo e ao automóvel elétrico. No Brasil, porém, as autoridades tendem a tratar com certo descaso os investimentos em transportes públicos e a afirmar, na contra-corrente, que o carro elétrico não terá futuro entre nós.
Em relação ao transporte coletivo, no passado as pessoas viajavam pelo Brasil utilizando o transporte ferroviário e hoje este meio de locomoção praticamente inexiste. Já pensaram no impacto positivo sobre o turismo (além do meio ambiente, mobilidade etc) se isso voltasse a acontecer?


Quanto ao carro elétrico, a afirmação aterradora do então presidente Collor, ao experimentar um carro na Itália, de que os carros brasileiros eram “verdadeiras carroças” volta à cabeça. Estava certo o polêmico político. A partir de então, se iniciou uma nova fase na indústria automobilística brasileira com o lançamento de modernos e tecnológicos automóveis.


Essa dúvida de alguns sobre o sucesso do carro elétrico no Brasil contrasta com a nova postura da juventude com relação ao automóvel, que já não é unanimidade entre eles, seja pelo aumento do uso compartilhado do veículo, tendência crescente em diversos países, seja pela evolução tecnológica, ou melhor, revolução tecnológica: o carro elétrico, que já começa a povoar a paisagem das cidades europeias.


Não será surpresa ver, nos próximos meses, a opção de carros elétricos disponíveis em aplicativos de transporte, assim como aconteceu na Conferência Mundial do Clima (CoP-23), em Marrocos, no final de 2016, onde todos os carros da Uber eram elétricos.


Essa visão retrógrada desconsidera o fato de que estamos no limiar de uma nova era da civilização com o objetivo de evitar o aquecimento global incentivando uma economia de baixo carbono. Na Alemanha, se discute que a partir de 2030 sejam fabricados somente carros elétricos e, a partir de 2050, somente esses veículos poderão circular nas espetaculares estradas germânicas. A Inglaterra tem sinalizado atingir o mesmo objetivo a partir de 2040.
Até mesmo nos Estados Unidos, que saiu do Acordo de Paris, somente este ano serão lançados mais de 40 modelos de carros híbridos – carros movidos a eletricidade e alternativamente à combustível – superando, assim, o maior obstáculo à sua introdução no mercado: a baixa autonomia – hoje por volta de 170 Km.


No Brasil, um país cuja produção de petróleo cresce e possui potencial para produção de etanol em larga escala, muitos têm argumentado que o alto custo da energia elétrica e a falta de infraestrutura de reabastecimento elétrico não permitem um futuro para o carro elétrico em nosso país.


Contudo, o que se vê na Europa, onde o custo de energia é ainda mais elevado do que no Brasil, é que a sociedade já está fazendo uma clara opção pelos veículos elétricos. Além da consciência ecológica, este avanço é também uma consequência do extraordinário aumento do fornecimento de energia de fontes renováveis – eólica e solar, principalmente.

Também nunca é demais lembrar que o Brasil é o país com a matriz energética mais limpa do mundo e possui um enorme potencial para geração de energia de base renovável.


A falta de infraestrutura para reabastecimento parece refletir a lógica de que “uma mentira mil vezes repetida se torna verdade” porque, segundo o IBGE, o acesso à energia elétrica já é praticamente universalizado no território nacional (99,96% nas áreas urbanas e 98,2% nas áreas rurais, em 2015), logo, este é um assunto de fácil solução.

Destaque-se que um dos fatores fundamentais para a popularização do carro elétrico foi o desenvolvimento da bateria de lítio, mineral do qual o Brasil detém mais de 8% das reservas mundiais, de acordo com o projeto de Avaliação do Potencial de Lítio no Brasil, coordenado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM).


Não podemos nos tornar simplesmente exportadores de mais uma commodity mineral, gerando empregos e riqueza em outros países enquanto o Brasil convive com mais de 12 milhões de desempregados. Temos que agregar valor no Brasil aos nossos recursos naturais, exatamente como fazem os Estados Unidos, que proíbem a exportação de petróleo, e a China, que tributa fortemente a exportação de terras raras utilizadas na fabricação de catalisadores.


Para exemplificar, a fábrica de bateria de lítio construída no Estado de Nevada, nos EUA, que deve custar cerca de US$ 5 bilhões, criará 6,5 mil empregos diretos e cerca de 16 mil indiretos. A expectativa é que a fábrica aporte cerca de US$ 100 bilhões em benefícios para a região nos próximos 20 anos. A maior parte das reservas de lítio está concentrada na América do Sul e no Brasil há mais reservas do que no território americano.

Será que investimento semelhante não poderia ser feito no Vale do Jequitinhonha, se as autoridades resolverem criar uma política industrial que estimule a agregação de valor no Brasil em vez de exportar commodities?


O Banco Mundial estima que o mercado de investimentos de baixo carbono na América Latina e no Caribe seja de US$ 1 trilhão até 2040, com US$ 600 bilhões se materializando até 2030, e no mundo, conforme estimado pela McKinsey, a economia de baixo carbono gerará entre US$ 57 e US$ 93 trilhões, até 2030, em novos investimentos em infraestrutura que emitem menos e resilientes ao clima.

Os exemplos existem. Se as autoridades brasileiras souberem navegar nesta revolução do setor automobilístico o setor industrial brasileiro poderá atrair uma boa parcela desses recursos.
Assim, parece não existir a menor dúvida de que os arautos do insucesso do carro elétrico no Brasil estão fadados a mais um fiasco lendário, como aconteceu com famoso diretor do departamento de patentes americano, Charles Holland Duell, que, ao final do século XIX, afirmou que “Everything that can be invented has been invented”.

Quem viver, verá. Ou será que estamos condenados a novamente andar de “carroças”?

Publicado originalmente no jornal Valor Economico

Marina Rocchi Martins Mattar é mestre em Relações Internacionais pela USP, membro da Carbon Pricing Leadership Coalition do World Bank, Diretora de Relações Institucionais da ABEAR e Diretora de Comunicação da ABRIG.

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