Almoço gratuito

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Chamo-me Dawton e no momento encaminhando para os últimos vinte e cinco anos finais de minha vida. Decidi não ir além dos cem anos, primeiro para não prejudicar o Fluxo de Caixa do INSS já tão debilitado, segundo em não aumentar as incumbências dos filhos ou netos, terceiro por perder gradativamente a vitalidade sexual tão importante para mim em todos esses anos.

Ontem, nestes tempos de reclusão social, ao ouvir uma matéria na televisão, alguém teria pronunciado a frase: “Não existe almoço gratuito!” Sobre qual assunto que se falava não me recordo, mas tal expressão não saiu de minha mente pelo resto do dia.

Tal frase tinha caído no meu subconsciente, onde estão guardadas informações e coisas lá esquecidas, muitas sem uso e outras sem importância alguma, todas cheias da poeira acumulada nestes longos anos já vividos. Conectei algumas sinapses, tentei ordenar alguns neurônios, tentei recuperar algo como que abrir os disquetes antigos da memória randômica de meu cérebro. Pensava comigo mesmo de que já ouvira isso em algum momento lá no passado, Mas, quando e onde? Não me lembrava. O noticiário perdeu a importância e repentinamente me vi olhando para o passado, procurando me lembrar de quem tinha ouvido esta frase emblemática.

Já tinha desistido. Não conseguia recuperar este arquivo. Paciência! Deve ser efeito da idade, algo relacionado com o “alemão”, como dizem sobre os esquecimentos vindos com a idade. Desisti do assunto e fui mexer no jardim, um de meus melhores passatempos atuais. Podei ali, arranquei algumas folhas mortas lá, capinei e afofei a terra num canteiro e assim gastei gostosas horas de lazer. 

Durante a noite, acordei umas duas horas depois. Tinha lembrado a pessoa que dissera tal frase.

Tinha ouvido durante conversa na sala daquele que foi um dos meus chefes mais liberal e amigo do peito. O Paulo José tinha dito tal frase, no início dos anos 1970. Vou simplificar seu nome, como todos nós o conhecemos, — o Paulão.

Anos depois um americano escreveu um livro cujo título era Não existe almoço gratuito. Este americano chamado Milton Friedman, como economista ganhou o prêmio Nobel, popularizou tal frase, no ano de 1975. Desde então, o mundo inteiro conhece esta frase, atribuindo a ele sua autoria.

Eu, Dawton, declaro de modo solene que tal ditado é da lavra de um brasileiro. É criação do Paulão, lá no setor de Tesouraria onde trabalhávamos. Muito antes do livro do Milton Friedman.

O Paulão era o Tesoureiro da empresa. A administração do dinheiro da empresa toda era centralizada em sua área. Contas bancárias em todo Brasil; aplicações de excesso de Caixa; operações com seguros de todos os tipos; fianças e garantias bancárias; operações de hedge para proteção do dólar frente a moeda brasileira; recolhimento de todos os impostos e contribuições da empresa; pagamento em conta corrente de empregados de salários e encargos; negociação de linhas especiais de investimento de longo prazo; tudo isso passava por suas mãos.

Uma empresa com alguns milhares de empregados, atuando em vários estados, recebendo e pagando no total altos valores chamava e ainda chama atenção de profissionais dos bancos. Até os bancos estatais queriam alguma parte do enorme bolo que circulava todos os meses pela sua área de Tesouraria. Na época, antes das consolidações bancárias muitos bancos agiam no mercado brasileiro, era uma concorrência brutal entre eles e seus principais clientes.

Estávamos em tempos de alta inflação, juros altíssimos, economia aquecida e acirrada concorrência. Chegava-se a negociar dois ou três dias, ou outros pequenos períodos do chamado “float” financeiro.

O Paulão era especialista nestes assuntos. Sagaz e astuto tal qual uma raposa velha, — sem demonstrar visivelmente, é claro! Os gerentes de bancos viviam namorando o Paulão todos os dias.

Os almoços aconteciam quase que diariamente entre ele e os gerentes de bancos que queriam entrar em algum dos canais de nosso Fluxo de Caixa. Uns queriam a folha de pagamento, outros nossa cobrança, outros queriam nossos recolhimentos de impostos, outros queriam o filé mignon (FGTS, INSS…). Todos eram diplomaticamente recebidos e colocados em “stand-by” naquilo que pleiteavam.

Essa rotina de almoços quase sempre era oportunidade de almoçarmos em algum restaurante chic de São Paulo, pago pela verba de representação do banco do dia. O Paulão sempre que calhava levava algum colaborador ligado ao assunto em evidência.

Conheci e almocei em restaurantes famosos e caros onde pensaria várias vezes em ir por minha própria conta. Boa comida, serviço de primeira, e tudo a preços módicos.

Espera aí! Preços módicos não! O Paulão disse entre nós ao final do primeiro almoço:

— Dawton, Não existe almoço gratuito!

Ele tinha razão, pois nos próximos dias ou em data futura éramos cobrados sobre consultas ou posicionamento sobre determinados assuntos que no almoço ficaram pendentes.

Saudades desta época, onde para mim o almoço era gratuito.

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