Inconformado

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     Chego à conclusão de que aquela afirmação de “Ter sorte é estar no lugar certo na hora certa” parece não se aplicar às minhas experiências nesta vida. Tal assunto tem mexido com meus mais íntimos pensamentos e em sempre podendo comento com conhecidos.

         Tinha pegado um trem metropolitano saindo de Jundiaí indo em direção à São Paulo para o trabalho diário na companhia aérea. Deixei o carro em casa. O trem está cheio e eu por ser de natureza expansiva, começo um interessante bate papo com um jovem, acredito eu nos seus 23-24 anos. Durante a conversa, nos apresentamos e ele dava continuidade aos temas mostrando ser bom ouvinte, mas sempre de olho na tela do celular que fechava a todo o momento e o reabria logo em seguida, como que atendendo um reflexo automático de seu cérebro.

         Iniciei nosso diálogo.

         — Sabe tenho pensado ultimamente que fiquei velho na época errada.

         — Como?

         — Desde que me conheço por gente, tenho levado a pior em todas as fases da minha vida. Em alguns casos cheguei antes das facilidades acontecerem e em outros saí antes que elas fossem implantadas.

         — Como assim?

         — A gente fica com a impressão de ter chegado antes de uma festa começar ou, de ter saído quando achava ela estar uma chatice, mas depois de sair, fica sabendo ter ficado ótima sem sua presença. Foi sempre assim. Alguns dizem ser simples azar. Veja você, na minha infância apanhei com varas de marmelo, cinta do meu pai e quando não os tinha, era nos sopapos mesmo sem dó. Depois que cresci, os mais novos não apanhavam mais. Aplicavam neles a psicologia, dizia-se que ”bater criaria traumas no menino” e o máximo castigo recebido era ficar olhando para as paredes ou ficar sem sobremesa no jantar. Eu nunca tive essa mamata. O máximo conseguido era depois de muito chorar, ganhar da vovó um pedaço de bolo escondido de meus pais.

         — É mesmo?

         — Não tinha esta de ter mamãe trabalhando fora, ou malhando na academia, ela estava lá todos os dias, com o chinelo na mão, já passei o dia só com café preto e nada mais A geração seguinte teve mordomias, com avós protetoras dando colo e enchendo a barriga dos netos todo santo dia, estragando os meninos. 

— Era mesmo assim?

— Se era… Apanhava em casa e na escola apanhava de novo. Na escola era com uma vara comprida, ou faziam a gente ajoelhar em grãos de milho sobre o chão durante uma hora. Hoje, se o menino passa batom da mãe ou irmã, nem surra leva, diz-se apenas; “temos de respeitar suas preferências”; e se ele rabisca ou mancha a parede com tinta, nem é recriminado, se diz “veja ele está mostrando dotes artísticos”. Tudo mudou. Nasci na época errada. Tive que decorar tabuada até a dos 12, e meu pai tomava de mim quando voltava da aula. Ai se não acertasse. Tive de aprender a fazer contas calculando na ponta do lápis. Hoje os garotos levam calculadora eletrônica e ninguém fala nada.

— Humm…

— Cheguei tarde à infância e hoje vejo que cheguei cedo demais na juventude. Como todo jovem meu corpo abrasava pelas experiências sexuais. Mas nada era permitido. Era pecado para alguns ou sem-vergonhice para outros. Só podia depois do casamento! Como falar isso para um rapazinho de 16 anos? Lembro-me de que a tal revolução sexual aconteceu, abrindo todas as portas a este problema, um mês após o meu casamento. Eu então tentei desfazer o casamento, mas era tarde, já estava preso, pagando um alto custo. Como pode ver os que vieram depois acharam todas as porteiras abertas.

— É verdade.

— Namorar na minha época era um sacrifício. Nada era permitido. “Não pode, só depois”. Só podia beijar. Você nem faz ideia de como é complicado destravar o fecho de um sutiã dentro de um cinema escuro. Alguns tinham um fecho difícil de abrir e quase sempre se quebrava. Aí era prejuízo certo. Um colega disse certa vez que teve uma namorada que tinha um cadeado fechando seu sutiã. Era jogo duro naquela época. Hoje, me diga se os sutiãs são seus inimigos? 

— Muitas nem usam.

— Assim cheguei à conhecida idade adulta. Trabalhando igual um burro de carga, engolindo sapos, fazendo horas e mais horas extras para pagar as contas que chegavam e até hoje ainda chegam. Era escola dos filhos, curso de natação, curso de balé, mensalidade da faculdade, prestação do BNH, prestação do carro, contas e mais contas sem parar. Hoje é mais suave, casa-se depois dos trinta anos, os filhos são postergados, há o Home Office, internet, redes sociais, trabalho à distância, uma verdadeira teta, como diria um amigo. Veja você, neste caso cheguei antes da maré mansa.  

— É.

— Pensei comigo; “vou tirar toda a diferença na velhice”. Mal tinha chegado, tive uma grande decepção; a aposentadoria tanto tempo aguardada chega através de valores irrisórios e insuficientes para pagar a série de boletos que ainda teimam em chegar todos os meses. Os filhos não se casam no tempo esperado, ficando a usufruir do orçamento familiar já apertado. O Ministro da Economia anda dizendo que a aposentadoria vai quebrar, aumentando ainda mais o drama. Com frequência tenho notado os filhos e os netos, em surdina estarem planejando me mandar para uma casa de velhos, visando desocupar um quarto da casa. Cheguei na hora errada também na velhice. Finalizando, veja você, entre nós dois aqui — eu passado dos setenta anos, — você jovem e cheio de vida e, apesar de já estarmos nesta prosa por um bom tempo, você, até agora, ainda não me cedeu seu lugar no banco deste trem…

— Qual é senhor Euzébio!  Tanto aqui como lá no Japão, velhinho que sai para as ruas mostrando independência, não tem privilégios, é tratado de igual para igual.

— Tá vendo! Cheguei tarde mais uma vez!

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